Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

http://jazzistica.blogs.sapo.pt

Blog de poesia , música e olhares de Marina Malheiro, aprendiz de poesia

http://jazzistica.blogs.sapo.pt

Blog de poesia , música e olhares de Marina Malheiro, aprendiz de poesia

# Desafio de Escrita dos Pássaros #2.6

06.03.20 | marina malheiro

Vivia numa bolha de informação . Não via televisão, não ouvia rádio, não lia jornais. Comia diante do computador, colocava os headphones em casa e na rua. Dormia nas aulas. Ouvia uns jovens que sabiam tudo e falavam sobre tudo, tudo , tudo e nada. Dava tudo resto zero, sempre.

Às vezes era particularmente difícil falar com ela. Emitia uns rugidos, grunhia ocasionalmente um "sim", um "não", em frases com três palavras. Os pais achavam normalmente estranho e amaciavam-lhe o rugir com presentes, receosos.

Um dia o computador dela ficou todo preto e uma frase aflitiva surgiu " Oh não, um vírus outra vez!". O coração começou a galopar-lhe no peito, subiu à laringe e quase saiu pela boca fora.

Durante 24 dias os computadores pararam em todo o país, forçados por um vírus estranho. "Os jovens da bolha" entraram em curto circuito emocional. Os psicólogos de Banco receitaram melatonina, ar livre e textos em papel, agarradinhos uns aos outros, encapados e prefaciados. Descobriram sites de troca de objetos e trocaram futilidades por livros, vazios por poesia.

"Milagroso, este vírus"., pensavam os pais dela.

Grunhia menos, sorria mais, estava ocasionalmente acordada nas aulas de Português, uma vitória, mas, sobretudo, amava os dias e muito mais os outros. Isso não havia vírus nenhum capaz de danificar.

@mmalheiro

[ The Divine Comedy, Don't mention the war, 2020, all rights reserved to The Divine Comedy]

 

 

6 comentários

Comentar post